
O desalojamento de 1,3 mil famílias e o consequente fim do Conjunto Muribeca, em Jaboatão dos Guararapes. É assim que moradores do habitacional têm encarado a iminência de mais uma iniciativa de desocupação, planejada pela Defesa Civil do município para os próximos meses. A necessidade de interditar os prédios para a realização de projetos de restauração ou reconstrução é a justificativa apontada pelo órgão. Quem mora por lá, no entanto, apesar de garantir que não se nega a sair, reclama que as obras em outros imóveis desocupados no ano passado sequer começaram. Muitos temem ficar na mesma situação dos moradores já retirados: não saber quando ou se vão poder voltar para casa.
No início desta semana, as pessoas que denunciam o problema receberam um documento da Prefeitura de Jaboatão, por meio do qual foi informado o cronograma inicial da ação. O informativo define 43 blocos localizados nas quadras 1, 2 e 4 do residencial como alvo de um cadastramento relacionado ao benefício do auxílio-moradia. A data da desapropriação não foi informada, mas, conforme os residentes da área, vai afetar quase todos os moradores do conjunto.
Como forma de protesto, a comerciante Carmen Lúcia de Araújo, 53 anos, conta que não pretende deixar o local em que vive há mais de 30 anos a menos que perceba avanços na restauração das outras edificações. “Querem ‘exterminar’ nossa comunidade de vez. O pessoal da quadra 3 já saiu e agora vão tirar o resto desses outros blocos. Já tivemos reuniões em Brasília, com a Caixa (Econômica Federal), e sabemos que os projetos de recuperação existem. Mas não temos garantia nenhuma de que vamos voltar. Tudo fica no papel. Queremos ver resultados”, reclamou.A comerciante ainda se queixa de que prédios em bom estado também estão sendo apontados como perigosos à vida. “Não podem generalizar. Têm muitos prédios bons aqui, mas só porque é (do tipo) caixão, ficam condenando todos. Não tenho motivo nenhum para sair daqui, muito menos sem ver reforma nenhuma nos outros”, asseverou Carmen Lúcia.
Já a moradora Vera Lúcia Ribeiro, 54, dispõe de um laudo feito cinco anos atrás, por meio do qual não foi apontada a possibilidade de desabamento do prédio em que ela mora, na quadra 4. A conclusão foi apresentada pelo mesmo instituto responsável pelo estudo de restauração dos edifícios já desocupados. Ela reclama que nem essa comprovação foi capaz de impedir que o edifício em que mora entrasse para a lista dos que virão a ser interditados. “O laudo apontou que era necessário reparar as vigas e algumas áreas da escadaria. Contratamos uma empresa de construção confiável e fizemos o que pediram com dinheiro do nosso próprio bolso. Agora, a ordem judicial diz que nosso laudo não vale e querem desocupar um prédio que não tem nenhum problema”, denunciou.
Fonte: LUIZ FILIPE FREIRE, da Folha de Pernambuco
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