Sem água e sem créditos
O celular pequeno, modelo flip, de segunda mão, custou R$ 65. O chip
saiu por R$ 10. Foram mais R$ 10 em créditos. Assim, pagando menos de R$
100, Adriana Brito, 23 anos, moradora do Sítio Jurema, zona rural de
Tabira (405 quilômetros de Recife), sentiu-se fazendo parte de um grande
grupo mundial, aquele que tinha nas mãos um moderno telefone portátil,
espécie de passe mágico que para tantos confirma: eu sou alguém. O
sentimento de inclusão durou pouco: gastos os créditos, Adriana não
tinha como ligar para ninguém, a não ser a cobrar. Não tinha à mão
apenas R$ 10 que garantiriam, ainda que por um curto período, a sua
participação naqueles outdoors das operadoras onde as pessoas surgem
sempre sorrindo enquanto falam com alguém do outro lado da linha. Mas,
para sorrir, Adriana precisava de dinheiro, precisava de créditos.
Precisava ainda de outro item, este mais luxoso: água limpa.
Toda família de Adriana – na casa ao lado, geminada, mora sua mãe, Maria
Lúcia, 46, mais três pessoas, entre irmãos e esposo – bebe uma água
salgada que é trazida por um caminhão-pipa da prefeitura e colocada na
cisterna da casa de uma parente, ali perto. Dá para encher dois tambores
com a água salobra que é compartilhada ainda com o pequeno Natanael, 6,
e os dois bois e cinco cabritos que circulam no curral. “Mas é tão ruim
que nem eles querem beber, os inocentes”, comenta Maria, que pena mesmo
para lavar roupa, pois “o sal corta todo o sabão”. O alto teor de
salinidade, no entanto, não é o pior problema da família da moça que
possui um celular quase mudo: várias vezes, Natanael, Maria e Adriana
ficam doentes após ingerir o líquido. No final de outubro, a criança
deixou de ir à escola por causa de uma forte diarreia.
Há um
fogão a gás na casa de Maria e um fogão a lenha na casa de Adriana. É
apenas no último que hoje a família pode cozinhar, já que não há gás de
cozinha. Há também a possibilidade de ferver a água, usando o fogo a
carvão, para evitar a contaminação por bactérias, mas, ali, tal prática
não é uma realidade. Adriana e os pais não são escolarizados e a única
renda fixa são os R$ 102 mensais do Bolsa Família. O dinheiro que
conseguem por fora vem dos sacos de carvão feitos no quintal, custam
entre R$ 6 e R$ 9. Quase o preço da quantidade mínima de créditos para
abastecer o celular. A família vive, assim, em uma espécie de vácuo
mercadológico: não é desejada pelo mercado e não tem nada material a
oferecer, muito embora Adriana, com seu telefone de segunda mão, tente
fazer parte do universo do consumo. Explica-se: se a ela não foi
possível a escolaridade formal, há o acesso contínuo e generoso à
pedagogia dos bens materiais que sugerem uma vida mais completa. Essa
pedagogia chega diariamente no lar paupérrimo, por exemplo, através da
TV presente na sala construída em meio a uma paisagem que lembra o solo
lunar.
Para a tristeza daquela família inserida na Classe Seca, a
estiagem torna essa inserção no mundo dourado do crédito quase nula:
com o pouco dinheiro, além de alimentar a prole, Adriana e os pais
precisam dar conta dos animais, que, quando tornam-se muito
dispendiosos, são oferecidos à morte através da sede e da fome. O saco
de milho custa mais de R$ 50, o saco de torta (ração feita com caroço de
algodão, soja) sai por R$ 60. “Só dá pra colocar dois canecos de ração
por dia, senão a comida não rende. Agora começamos a pinicar mandacaru,
como fazemos com a palma, para render mais”, conta Adriana. Há dois anos
não colhem jerimum, milho e feijão, com os quais mantinham-se
alimentados. Não há previsão de iniciar uma nova plantação.
Da
cerca que limita a área da residência, Adriana observa a estrada lunar à
espera de que alguém vá até ali e traga notícias sobre uma água boa.
“Na época da eleição eu votei em um homem que disse que ia fazer um poço
aqui. Eu lhe digo que votei nele mesmo, para quando fosse a hora da
precisão.” Dentro daquele vácuo, sem o básico do básico do básico, ela
lamenta não poder mudar a hierarquia de suas necessidades, de suas
precisões. No máximo, pode voltar ao Centro de Tabira, olhar o que é
exibido nas vitrines. No fim, Adriana, sem crédito no celular e sem
água, limita-se hoje apenas a um papel: é espectadora da felicidade
alheia, da felicidade vista no sorriso daqueles que aparecem no
comercial do celular.
Fonte: Fabiana Moraes JC
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